domingo, 18 de junho de 2017

UMA FRANCESA ENREDADA NAS TRAMAS DO BRASIL PROFUNDO

O quinto longa metragem dirigido por Carlos Diegues resulta de uma coprodução franco-brasileira protagonizada por Jeanne Moreau: Joanna Francesa, de 1973. A atriz aprovou o roteiro, de autoria do próprio diretor, escrito na França em 1970. Já era fã do praticamente menosprezado e ambicioso Os herdeiros, terceiro longa do cineasta, realizado nesse ano. Moreau interpreta Jeanne, cafetina transplantada de São Paulo pelo amante, o Coronel Aureliano (Carlos Kroeber), para a decadente fazenda de Santa Rita, uma grande propriedade especializada na monocultura de cana-de-açúcar encravada em pleno sertão alagoano. A narrativa de Joanna Francesa é contemporânea dos impactos provocados pela Revolução de 30. Os efeitos políticos do processo foram legitimados pela força de um pacto nacional gerador de uma modernização conservadora que em nada alterou a estrutura agrária herdada da dominação colonial portuguesa. Não obstante, o arcaico empreendimento da monocultura canavieira amarga arrastado processo de insolvência. Os engenhos, sob regime de fogo morto, são sobrepujados pelas usinas. Tão logo chega a Santa Rita, Jeanne é apelidada pelo povo da localidade de "Joanna Francesa, a cadela que o coronel Aureliano trouxe da São Paulo". O roteiro recebe influências da tragédia grega, do realismo fantástico, do cinema surrealista de Luis Buñuel e da literatura regionalista de José Lins do Rêgo e José Américo de Almeida. A protagonista é praticamente investida, de forma algo inconsciente e sobrenatural, no papel de anjo exterminador da anômica família de Aureliano e de um modo de vida estruturado pela dominação da grande propriedade rural. Jeanne, porém, não resistira incólume ao processo. Ela mesma se torna prisioneira de um sistema insidioso e fadado a resistir, como fantasmagoria, por força dos impávidos elementos que o constituem. Segue apreciação escrita em 2012.







Joanna Francesa
Joanna Francesa/Jeanne, la française

Direção:
Carlos Diegues
Produção:
Pierre Cardin, Nei Sroulevich
Zoom Cinematográfica
Brasil, França — 1973
Elenco:
Jeanne Moreau, Carlos Kroeber, Helber Rangel, Eliezer Gomes, Rodolfo Arena, Ney Sant'Anna, Tetê Maciel, Lelia Abramo, Leina Crespi, Beto Leão, Ruy Polanah, Rogério Polli, Tonho, Antônio Pitanga, Ana Maria Magalhães, Manfredo Colassanti, Angelito Mello, Pierre Cardin, Sylvie Pierre, Mário Ventura, Maria Sílvia.



O cineasta brasileiro Carlos Diegues, também conhecido por Cacá Diegues



Depois de A grande cidade (1966) Carlos Diegues teria realizado o obscuro Os filhos do medo (1967), coprodução entre Brasil e França, direcionada à televisão, e da qual é praticamente impossível encontrar maiores informações. A esta altura, a existência desse título provoca dúvidas. É registrado ligeiramente pelo Internet Movie Database (IMDb) com o dado adicional de que é colorido[1]. Porém, não o mencionam o Dicionário de cineastas de Rubens Ewald Filho[2] e o similar de Paul Tulard[3]. Da mesma forma não consta do mais específico Dicionário de cineastas brasileiros, de Luiz F. A. Miranda[4]. Pelo mesmo caminho vão a pouco confiável Wilkipedia[5] e o site oficial do cineasta[6]. Aparentemente, o IMDb também segue solitário ao listar o documentário Oito universitários à filmografia de Diegues. É outra praticamente desconhecida coprodução franco-brasileira de 1967, em preto e branco.


Quatro anos após A grande cidade Carlos Diegues lança o ambicioso e frustrado Os herdeiros (1970). A seguir, irrompe outro mistério no rol de filmes que teria dirigido: o curta Receita de futebol (1971), referenciado apenas pela Wilkipedia. De 1972 é o alegre e descompromissado Quando o carnaval chegar.


Desde o lançamento de A grande cidade Diegues alternou a estadia entre Brasil e França. No país europeu, em 1970, escreveu a história de Joanna Francesa — alegórico, melancólico e trágico mergulho nas entranhas do Brasil profundo. Tem por cenário uma decadente e grande propriedade rural monocultura localizada no sertão alagoano, especializada no cultivo de cana-de-açúcar. A trama se desenrola no contexto histórico da modernização conservadora decorrente da Revolução de 30. Uma personagem estrangeira, a Joanna do título, é atirada no seio dessa realidade e investida no papel de anjo exterminador de uma família e um modo de vida. Porém, não escapa incólume aos efeitos da própria ação saneadora. É irremediavelmente aprisionada pelas fortes e impenetráveis forças estruturais que plasmam o atraso brasileiro nos planos morais, sociais, econômicos e políticos.


A cafetina Jeanne (Jeanne Moreau), apelidada de Joanna Francesa depois de transplantada para o sertão de Alagoas


A história, roteirizada pelo próprio Diegues, mereceu o vivo interesse de Jeanne Moreau. A atriz, um dos símbolos do moderno cinema francês materializado na Nouvelle Vague — protagonista de Ascensor para o cadafalso (Ascenseur pour l'échafaud, 1958), de Louis Malle; Os amantes (Les amants, 1958), também de Malle; Jules e Jim ― uma mulher para dois (Jules et Jim, 1962), de François Truffaut; e, entre outros títulos, A noiva estava de preto (La mariée était en noir, 1968), igualmente de Truffaut —, havia gostado de Os herdeiros. Aceitou de pronto interpretar a protagonista de Joanna Francesa e assim facilitou um regime de coprodução com a França. De quebra, Moreau chegou ao Brasil com um acompanhante de luxo: o figurinista pessoal Pierre Cardin, também produtor do filme. A ele foi reservado o papel de amigo e interesse amoroso da personagem: o cônsul Pierre. Joanna é persuasiva e forte. É capaz de se impor — inclusive pela mimetização — às circunstâncias mais adversas. Não para menos Moreau a classificou como equivalente a Viena, vivida por Joan Crawford em Johnny Guitar (Johnny Guitar, 1954), de Nicholas Ray[7].


Filmado em Anhumas/SP e nas cidades alagoanas de Maceió e União dos Palmares, Joanna Francesa mereceu os prêmios Coruja de Ouro do Instituto Nacional de Cinema (1973) e da Associação Paulista de Críticos de Arte (1974) para Melhor Música (Chico Buarque de Holanda e Roberto Menescal). Também recebeu da Associação Paulista de Críticos de Arte a premiação por Melhor Roteiro Original para Carlos Diegues, empatado com Walter Hugo Khouri por O último êxtase (1973).


A realização pertence à fase mais alegórica, de comunicação por mensagens cifradas, do Cinema Novo. A ditadura instalada pelo golpe militar de 1964 estava em pleno vigor graças ao draconiano Ato Institucional Número 5 (AI-5) e recrudescimento da censura às letras e artes em geral. Não obstante, é visível o esforço de Diegues para se desvencilhar das dificuldades que impediam maior interação com o público. A narrativa — dominada pelas tonalidades pessimistas da decadência em seus aspectos mais sórdidos, obscuros e sombrios — tenta não perder de vista as aberturas à espontaneidade e valorização de uma linguagem mais direta — pelo menos no campo visual —, perpassada por emoções à flor da pele. Tais características marcariam nitidamente os filmes seguintes do diretor.


Em termos de afinidade literária, percebem-se influências de autores do romanceiro regional que registraram com realística crueza a decadência da monocultura canavieira e dos engenhos: José Lins do Rêgo via Usina (1936), Banguê (1934), Fogo morto (1943), Menino de engenho (1932), Doidinho (1932), Moleque Ricardo (1935); e José Américo de Almeida de A bagaceira (1928), para ficar apenas com estes exemplos. Porém, em termos narrativos Joanna Francesa se alimenta vivamente de elementos da tragédia grega, do surrealismo característico de Luis Buñuel e do realismo fantástico segundo a concepção do colombiano Gabriel García Márquez em Cem anos de solidão (1967).


A tela expõe a história de Jeanne, a francesa do título, cafetina de requintado bordel em São Paulo. Ao lugar convergem políticos, diplomatas e fazendeiros de todo o país. A personagem está no Brasil há muitos anos. Apesar disso, não perdeu vínculos com as origens e alimenta a vontade de retornar para a França. No entanto, essa mulher personalíssima e muito ciosa de si será praticamente transplantada por força da própria insistência para a decadente fazenda de Santa Rita, empreendimento canavieiro encravado no sertão de Alagoas. O amante Aureliano (Kroeber), proprietário da plantation, pretendia mesmo levá-la para lá — mas somente após a morte da esposa Das Dores (Crespi), gravemente adoentada e nas últimas.


Acompanhada do amante, Coronel Aureliano (Carlos Kroeber), Jeanne (Jeanne Moreau) chega à Fazenda de Santa Rita


Jeanne chega à propriedade como espírito livre, a tempo de sentir os dramáticos efeitos do falecimento da enferma. Logo percebe que irrompeu no seio de um núcleo familiar em total anomia. As normas de tratamento e convívio vão da indiferença de uns pelos outros, passando pela completa permissividade nas relações fraternais até chegar ao puro ódio. Ao espectador desavisado, a personagem — por força da própria personalidade e pelo fato de ser um corpo estranho, vindo de longe — poderia se passar por agente de regeneração, alguém com poderes para implantar um mínimo de ordem e equilíbrio no seio da família de Aureliano e nas relações do núcleo com a sociedade envolvente. Mas isto seria solução por demais simplificadora e irreal.


Diegues trata da realidade bruta, moldada por uma história de longo curso, praticamente naturalizada e impermeável às vontades de indivíduos e agentes transformadores. O mundo fortemente estruturado no qual Jeanne se assentou goza do íntimo conhecimento do também alagoano cineasta. O ambiente local não funciona apenas como pano de fundo. Age como silente e insidioso ser vivo, um agente anulador e repressor de vontades. As individualidades estão afundadas na apatia, conformadas ao fluxo dos eventos que as envolvem por completo. Assemelham-se a títeres moldados e manipulados pela mão forte da mais atávica e incontida determinação natural. Aureliano apenas ensaia uma reação. Quer recuperar economicamente a propriedade. Assombra-o o destino reservado ao outrora poderoso Tio Júlio (Angelito Mello), prisioneiro cego de um latifúndio falido e abandonado pelos herdeiros transformados em comerciantes na capital alagoana. Porém, o amante de Jeanne consegue apenas formular planos impossíveis de concretização. As bases políticas nas quais ancora o raciocínio não mais se sustentam. A Revolução de 30 redefiniu as forças em jogo. Aureliano não percebeu as mudanças e foi engolfado pelas circunstâncias. Antigos aliados mudaram de lado. Nada poderá retirar Santa Rita da condição de fogo morto. A comercialização e beneficiamento da produção estão na dependência da moderna usina de "apetite insaciável" do vizinho e rival Coronel Lima (Polanah), para o qual perdeu a força de trabalho. A Santa Rita, outrora gloriosa, está na iminente situação de se converter em servil e humilhada fornecedora.


O Coronel Lima (Ruy Polanah)

Padre Seixas (Rodolfo Arena) e Dona Olímpia (Lelia Abramo)


Apesar da narrativa centrada quase que exclusivamente nas particularidades internas do permissivo núcleo familiar de Aureliano, Joanna Francesa trata, acima de tudo, da irrefreável situação de decadência e dissolução dos grandes latifúndios gerados pela estrutura colonial e que, à força dos séculos, moldaram os hábitos e mentalidades de um país inteiro. Simbolicamente, a personagem chega para testemunhar e, de certo modo, supervisionar com indiferente frieza um processo que se arrasta para a fase terminal. Ela própria não terá forças para resistir aos ares viciados da estrutura que a acolheu. Receberá a irrecusável maldição de lançar a definitiva pá de cal sobre tudo e todos, enquanto é acompanhada pelos emblemáticos acordes da canção-tema de mesmo nome do filme, composta por Chico Buarque de Holanda. Vez ou outra a própria Jeanne interpreta a melodia. É quando os versos ganham características de um prefixo em forma de tristes augúrios, como se fossem emitidos por uma ave encarregada de espalhar os definitivos tormentos sobre a terra amaldiçoada — uma grande extensão dominada pela homogeneidade da plantação. É a característica que a francesa logo estranhará: "Mas, Aureliano, é tudo igual" — afirma admirada. Ainda assim, o amante tenta oferecer inútil contraponto ao informá-la sobre as muitas variedades de cana cultivadas em Santa Rita.


Jeanne não conheceu Das Dores com vida. A personagem defendida por Leina Crespi faleceu logo após a chegada da intrusa. Estava entregue aos delírios, para constrangimento dos acompanhantes. Alardeava que era a "Égua de Aureliano" e sentia desejos de gozar mais uma vez antes de partir. No entanto, a francesa é logo apresentada aos filhos do amante, primeiramente ao bastardo Ricardo (Leão), estudante de medicina no Recife. Será expulso de casa pelo pai, por tomar liberdades com a recém chegada, e se perderá em problemas com a polícia. Lianinho (Rangel) é o primogênito dos herdeiros legítimos, esperança passageira de dias melhores para Santa Rita. Os mais novos e gêmeos Dorinha (Maciel) e Honório (Sant'Anna) crescem juntos e apartados de todas as regras e tabus. Alimentam às claras um relacionamento incestuoso. Olímpia (Abramo), genitora de Aureliano, praticamente desistiu de exercer qualquer controle sobre a família, ainda mais após o nascimento de um filho gerado pela relação incestuosa de Lianinho com a incontrolável mãe Das Dores. Aurelino acredita que é pai do menino sem nome, limítrofe física e mentalmente. O infeliz, tratado como animal, passa os dias trancafiado em miserável casebre erguido nas proximidades da casa grande. Não fala e geme constantemente. Além do filho e mãe incestuosos, apenas Olímpia sabe do terrível segredo, mal do qual se encarregou de eliminar e não conseguiu por falta de oportunidade ou coragem. Abençoando o núcleo familiar e posto na sua dependência está o servil padre Seixas (Arena), sempre pronto a relevar e perdoar as escabrosidades às quais serve como muda testemunha. Também passa por dedicado agente de manipulação ideológica do povo de Santa Rita, embora sua inutilidade neste papel se torne cada vez mais evidente nos tempos incertos que emergem. Por fim há Gismundo (Gomes), serviçal negro de confiança da família, viva herança da escravidão submetida à mais canina das fidelidades. É encarregado de resolver questões de ordem geral e dele Jeanne logo aprenderá a tirar partido.


Jeanne (Jeanne Moreau), já envelhecida, e Gismundo (Eliezer Gomes)

Jeanne (Jeanne Moreau) castiga os incestuosos Dorinha (Tetê Maciel) e Honório (Ney Sant'Anna)


Até a chegada da estrangeira — chamada de "Joanna Francesa, a cadela que o coronel Aureliano trouxe de São Paulo" pelo povo da localidade —, Olímpia era o centro forte de Santa Rita, apesar de admitir o fracasso na tentativa de controlar as aberrações da família. Não nutre simpatia alguma pela intrusa. Porém, tece ardilosamente as teias do destino, como agente do sobrenatural. Lançará sobre Jeanne algo como uma maldição materializada com força de missão irrecusável. Num ato extremo, decorrente da própria vontade, a personagem interpretada por Lelia Abramo se retira para morrer. Antes de ter a alma encomendada em vida pelo padre Seixas, em cerimônia restrita apenas aos familiares, nomeia Jeanne como espécie de sucessora, encarregada, portanto, de exterminar todos os males que pairam sobre Santa Rita. A esta tarefa, recebida como imposição do imponderável, a francesa se entregara com denodo, apesar de agir como força inconsciente.


Logo os irmãos incestuosos são exemplarmente punidos por ordem de Jeanne, à moda medieval, até que conseguem escapar para se perderem, desatinados e nus, pela imensidão sempre igual dos canaviais. Lianinho, após entrar em conflito com os Lima, morre baleado ao ser impelido a um combate desigual pela madrasta. Aureliano, cada vez mais apático e aprisionado em inúteis sonhos de grandeza, deixa-se levar pelas vagas incontroláveis do destino e perece afogado. Padre Seixas é largado à própria sorte depois de contribuir para a desgraça de Lianinho. Quando a missão saneadora está próxima de ser concluída, Jeanne recebe a visita de Pierre — que tenta retirá-la de Santa Rita. Ela consente, mas uma vontade externa a controla e impede uma tomada de posição consciente. Tornou-se prisioneira da propriedade. Está condenada a aí permanecer, até o fim dos dias. Ordena a realização de uma festa, em cujo decorrer abate a tiros o menino amaldiçoado pela relação incestuosa. Pierre parte sozinho. Jeanne permanece na companhia de Gismundo, a quem ordenou a venda de todos os bens móveis. O valor arrecadado será dividido entre os empregados, demitidos a seguir. O tempo passa. Jeanne, grisalha, cada vez mais parecida com Dona Olímpia — segundo apreciação de Gismundo —, permanece na fantasmagórica guarda das abandonadas terras de Santa Rita, das quais nunca conseguirá sair. É como se fosse alguma personagem de O anjo exterminador (El ángel exterminador, 1962), de Luis Buñuel, impedida misteriosamente de deixar o recinto de uma festa. Falece na mesma cadeira de balanço tantas vezes ocupada por Dona Olímpia.


Jeanne (Jeanne Moreau) ampara Lianinho (Helber Rangel)

No papel do Cônsul Pierre, o estilista Pierre Cardin, também produtor e figurinista de Joanna Francesa


Apreciado quase 40 anos após a realização, Joanna Francesa dá a impressão de se beneficiar com a passagem do tempo. É uma das melhores alegorias do cinema brasileiro. Aventura-se com propriedade e senso criativo pelas estranhas do Brasil profundo, universo impenetrável, constantemente alijado de nossas vistas pelos defensores acríticos de uma modernização que recusa terminantemente qualquer prestação de contas com o passado estruturador de vícios e fracassos das nossas sempre problemáticas relações políticas e sociais. Santa Rita é uma espécie de porão da brasilidade. Este ambiente, considerado de forma geral, aguarda ansioso e em incômodo silêncio por novas oportunidades de desbravamento da parte dos nossos cineastas. A esta missão se entregou com afinco apenas a geração do Cinema Novo — ao que parece.


Dib Lutfi, diretor de fotografia experimentando nas descrições da brasilidade revelada por nosso cinema, capta as imagens de Joanna Francesa em tonalidades despojadas, de forma a mais natural. É uma bem realizada tentativa de expor uma paisagem naquilo que ela parece ter de próprio, em suas exclusivas colorações de ambiente singular, conformado aos termos e compassos da decadência. Os personagens estão em sintonia com o meio. Os atores conduzem as interpretações também de forma naturalizada, em consonância com as emanações do espaço físico que os envolve. Jeanne Moreau — dublada por Fernanda Montenegro — compreendeu as intenções de Carlos Diegues e soube incorporar a lenta respiração da região — um Brasil agônico, nauseante, envolvente, decadente e resistente ao completo desaparecimento.


Acompanhada de Gismundo (Eliezer Gomes), Jeanne (Jeanne Moreau) incendeia o casebre que abrigava o filho da relação incestuosa de Lianinho (Helber Rangel) com Das Dores (Leina Crespi)


Um dos melhores momentos de Joanna Francesa pertence a Rodolfo Arena. É um achado a curta sequência de padre Seixas sobre um pequeno jumento, alardeando aos quatros ventos para o povo da indiferente localidade de Santa Rita: "Estarei sempre ao lado do Coronel Aureliano, lutando para que a anarquia do progresso não tome conta de tudo".





Direção de produção: Carlos Alberto Prates Correia. Produção executiva: Ney Sroulevich. Assistência de produção: Sílvio Henrique, Carlos Luiz Miranda, Nelson Filho. Argumento e roteiro: Carlos Diegues. Assistentes de direção: Carlos Del Pino, Sérgio Luz. Continuidade: Marco Altberg. Direção de fotografia (Eastmancolor) e operador de câmera: Dib Lutfi. Assistente de câmera: Mário Murakami. Efeitos especiais de fotografia: Mendes Filho. Fotografia de cena: Rui Faquini. Eletricista: Rui Medeiros, Jorge Rodrigues. Maquinista: José Pinheiro de Carvalho. Mixagem de som: José Tavares. Direção de dublagem: Vitor Rapozeiro, Roberto Melo Leite. Ruídos de sala: Geraldo José. Som guia: Nelson Pereira dos Santos Filho. Montagem: Eduardo Escorel. Assistente de montagem: Amauri Alves. Cenografia: Anísio Medeiros. Figurinos: Pierre Cardin, Teresa Nicolao. Decoração: Ernani Leioleiro, Companhia Nacional de Tecidos Nova America, Calandrino Antiguidades, Casa David. Maquiagem: Ronaldo Abreu. Música e direção musical: Chico Buarque de Holanda, Roberto Menescal. Intérpretes das canções: Nara Leão, Jeanne Moreau, Raimundo Fagner. Dubladora de Jeanne Moreau: Fernanda Montenegro. Créditos: Aluísio Magalhães. Tempo de exibição: 110 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2012)



[2] EWALD FILHO, Rubens. Dicionário de cineastas. São Paulo: Global, 1977 e EWALD FILHO, Rubens. Dicionário de cineastas. São Paulo: Nacional, 2002.
[3] TULARD, Paul. Dicionário de cinema: os diretores. Porto Alegre: L&PM, 1996.
[4] MIRANDA, Luiz F. A. Dicionário de cineastas brasileiros. São Paulo, Art: 1990.
[7] DIEGUES fala de Moreau e "Joana". Filme Cultura, Rio de Janeiro, INC/MEC, n. 23, p. 19, jan.-fev./1973.