domingo, 19 de novembro de 2017

GEORGE SHERMAN EXUMA O HERÓI MEXICANO JOAQUÍN MURRIETA EM PRODUÇÃO ESPANHOLA

Um dos prazeres indiscutíveis da minha infância consistia em ir ao cinema com o pai, Altamyr Guimarães, também cinéfilo. Juntos assistimos, em 1965, no finado Cine Brasil de Viçosa/MG, ao western A morte de um pistoleiro (Joaquín Murrieta, 1964). Como quase sempre acontecia quando os filmes versavam sobre fatos e homens reais, ouvi uma preleção a respeito do personagem do título: fora-da-lei aos olhos dos estadunidenses que se apossaram da Califórnia e herói vingador para os mexicanos que a perderam. Marginalmente, a luta do biografado por justiça inspirou o autor Johnston McCulley a escrever, em 1919, o folhetim The curse of Capistrano, base para o lançamento do herói mascarado Zorro. Em 1965, com 9 anos, fiquei impressionado com A morte de um pistoleiro. Pareceu-me um western notável e algumas passagens permanecem indeléveis em minha memória. Acreditava que era produção estadunidense por causa do diretor George Sherman, do cartaz e dos atores principais. Muito depois descobri que é produção espanhola, hoje relegada à obscuridade. O ponto de vista impresso à narrativa é francamente favorável à luta de Joaquín Murrieta (ou Murieta), interpretado com correção e discrição por Jeffrey Hunter. Arthur Kennedy faz o inicialmente amigável Capitão Harry Love, xerife que se obrigará a persegui-lo. A apreciação a seguir é de 1974. 






A morte de um pistoleiro
Joaquín Murrieta

Direção:
George Sherman
Produção: 
Pro Artis Ibérica S. A.
Espanha — 1964
Elenco:
Jeffrey Hunter, Arthur Kennedy, Diana Lorys, Roberto Camardiel, Sara Lezana, Mike Brendel, Frank Braña, Gonzalo Esquiroz, Fernando Villena, Juan Cazalilla, Héctor Quiroga, Julio Pérez Tabernero, María José Collado, David Thompson, Andy Anza, Pedro Osinaga e os não creditados José Luis Chinchilla, Sancho Gracia, Jose Halufi, Rufino Inglés, Alfredo Muñiz, Guillermo Méndez, Enrique Santiago, Freddie Toehl.



Bastidores de O tesouro de Pancho Villa (The treasure of Pancho Villa, 1955)
O diretor George Sherman entre 
 Gilbert Rolland e Shelley Winters, intérpretes do Coronel Juan Castro e de Ruth Harris


Joaquín Murrieta (ou Murieta) Carrillo merece díspares considerações a depender das populações e dos lados da fronteira. Para os estadunidenses é simplesmente um bandoleiro. Já os mexicanos o têm na conta de herói, vingador e guerrilheiro. Chegou ao fim da vida assassinado, em 25 de julho de 1853, na zona fronteiriça entre México e Estados Unidos, vitimado por emboscada armada pela patrulha de rangers californianos organizada exclusivamente para prendê-lo ou eliminá-lo. A fama começou, segundo a maioria das versões, quando teve a área de garimpo atacada por estadunidenses. Sofreu brutal agressão e a esposa terminou estuprada e assassinada. No contexto de segregação racial que tinha os mexicanos por vítimas, sabia: jamais conseguiria reparação segundo os ritos formais da Justiça. Por isso, a vida de homem pacato mudou completamente. Armou-se, aprendeu a atirar e caçou com determinação os agressores, até matá-los. Foragido, passou os anos seguintes à frente de um grupo armado. Pretendia, em acordo com os relatos, retomar a Califórnia para o México.


Jeffrey Hunter na caracterização de Joaquín Murrieta


Pouco se sabe da vida de Joaquín Murrieta, transformada em lenda pela cultura popular mexicana quando ainda cavalgava. Foi enaltecida em versos, contos, livros, brochuras e canções. Entre os que o reverenciaram estão o compositor e cantor chileno Víctor Jara — com o corrido A Joaquín Murieta — mais o conterrâneo e poeta Pablo Neruda — a cantata Fulgor y muerte de Joaquín Murieta, recentemente interpretada e gravada por Olga Manzano e Manuel Picon. O personagem, provavelmente, inspirou Johnston McCulley em 1919, quando escreveu a novela popular The curse of Capistrano. Nesta, o herói mascarado e em trajes negros é o Zorro. O autor, por sua vez, teria se baseado em The life and adventures of Joaquín Murieta: the celebrated California bandit, escrito por John Rollin Ridge em 1854.


Joaquín Murrieta é símbolo da resistência de mexicanos espoliados e violentados pela prepotência econômica, militar e racial estadunidense. Segundo a Associação dos Descendentes que lhe leva o nome, assassinar gringos não era a sua missão. As campanhas que protagonizou, de cunho político e militar, visavam exclusivamente a reincorporação da Califórnia ao México. A região e outras áreas — cerca de um milhão e quatrocentos mil quilômetros quadrados — foram perdidas para os Estados Unidos em 1848, ao final de uma guerra de dois anos, pela assinatura do Tratado de Guadalupe Hildalgo. Em compensação, o país derrotado foi indenizado com módicos 15 milhões de dólares. Quanto aos mexicanos pobres, descendentes de índios, que habitavam as regiões anexadas, tiveram que se virar por conta própria — ainda mais com a afluência crescente de contingentes populacionais brancos. Em 1849 a marginalização dos nativos aumenta diante da descoberta de ouro — que eleva exponencialmente os habitantes da Califórnia — e a especulação fundiária. A situação pouca se altera quando o território se torna o trigésimo primeiro estado da União no ano seguinte. Os contextos social, político e econômico estavam preparados para o surgimento de Joaquín Murrieta.


Joaquín Murrieta (Jeffrey Hunter) antes da "perder a inocência"

Rosita (Sara Lezana), esposa de Joaquín Murrieta (Jeffrey Hunter)

O xerife Capitão Harry Love (Arthur Kennedy)


Durante muitos anos pensei que A morte de um pistoleiro fosse produção estadunidense. Era o que sugeriam George Sherman na direção, o elenco capitaneado por Jeffrey Hunter e Arthur Kennedy, e o título supostamente original, apresentado nos cartazes e demais reclames publicitários como Murieta!. Estava com 9 anos quando o vi, em 1965. Fiquei impressionado com a exposição. Pareceu-me um western incomum. Algumas imagens ficaram indelevelmente gravadas na memória: a violência contra Joaquín (Hunter) e a esposa Rosita (Lejana), a cômica e fracassada sequência da tentativa de enforcamento de Garcia Três Dedos (Camardiel) e o epílogo, quando o moribundo protagonista informa ao Capitão Harry Love (Kennedy) que não houve quebra do acordo. Em 1974, quando iniciei a ampliação de dados das minhas anotações de cinema, tive dificuldades para levantar mais informações sobre a produção. Até então, registrava somente o título nacional, diretor, além de dois ou três nomes do elenco. Descobri, para meu espanto, que o título original é Joaquín Murrieta e a produção é espanhola, da Pro Artis Ibérica S. A., e não da Warner Brothers — cujo nome tinha primazia no cartaz. Essa era apenas a companhia distribuidora. Portanto, A morte de um pistoleiro, em analogia com o western spaghetti dos italianos, é um autêntico western paella. As externas foram obtidas em locações da Espanha: La Pedriza, Colmenar Viejo e Alméria, onde se ergueu a cidade cenográfica.


Joaquín Murrieta (Jeffrey Hunter) e a esposa Rosita (Sara Lezana) assassinada

Joaquín Murrieta (Jeffrey Hunter) ante a sepultura da esposa Rosita (Sara Lezana)


A produção é tributária do padrão ‘B’ de qualidade, ao qual George Sherman ficou praticamente relegado em toda a carreira. As exceções são a produção de Os comancheros (The comancheros, 1961), de Michael Curtiz, e a direção de Jake Grandão (Big Jake, 1971). Sherman começou no cinema em 1932, como diretor de segunda unidade e assistente de direção. Estreou na realização em 1937 e logo ganhou fama de profissional dos mais confiáveis. Notabilizou-se em filmes de ação e aventuras, geralmente westerns, alguns protagonizados por John Wayne.


Outras abordagens da lenda de Joaquín Murrieta tiveram vez no cinema estadunidense. A mais notória é de William A. Wellman, ainda assim deficitária: O bandoleiro do El Dorado (Robin Hood of El Dorado, 1936). Também há Jovial defensor (The gay defender, 1927), de Gregory La Cava, e o telefilme The desperate mission (1969), de Earl Bellamy. Warner Baxter encarnou o personagem no título de Wellman; Richard Dix e Ricardo Montalban nas incursões de La Cava e Bellamy, respectivamente.


Um ponto a ser imediatamente ressaltado na abordagem de George Sherman é o retrato simpático e francamente favorável a Joaquín Murrieta. Além da bela estampa de Jeffrey Hunter — provavelmente em tudo distante do real perfil do homem real — o que se vê é alguém covardemente agredido e injustiçado, ciente de que não conseguiria reparação numa sociedade racialmente cindida, com decisões jurídicas francamente favoráveis aos brancos. Nisso, até o amigo e xerife Capitão Harry Love se vê obrigado a lhe dar razão: também duvida da eficácia do tribunal no julgamento dos homens que o espancaram e lhe assassinaram a esposa. O próprio Love é obrigado a detê-lo quando faz justiça com as próprias mãos e em público.


Garcia Três Dedos (Roberto Camardiel) passa por cômica e frustrada execução na forca


A seguir, começa a saga do perseguido e se agiganta a figura do herói para os mexicanos. Escapa da prisão na companhia de homens que se tornarão seus auxiliares diretos: Garcia Três Dedos e Claudio (Osinaga). A evasão acontece graças à providencial intervenção de Kate (Lorys), personagem certamente improvável nessa história cheia de lances duvidosos. A partir daí não sobram alternativas para o profissional Capitão Love. Deverá deixar as considerações pessoais de lado e caçar para valer o fora-da-lei.


Um dos pontos mais interessantes de A morte de um pistoleiro é o processo que conduz à transformação do pacato mineiro em decidido vingador. George Sherman encena a passagem apenas com imagens que duram o tempo preciso. O homem ferido, tradicionalmente descalço e em vestes brancas de algodão — típicas do camponês mexicano —, chega à cidade. Paulatinamente, incorpora a frieza e o ethos de um gringo: calcula os movimentos, altera a indumentária, adota as cores escuras, aprende a jogar, torna-se ás no gatilho, incorpora a frieza ao comportamento e se capacita no poder intimidador do olhar. Infelizmente, quanto ao mais, não deixa de ser um filme corriqueiro. Sacrifica as importantes questões política e racial em favor do melodrama sobre as agruras de um homem afetivamente ferido, que direciona as ações motivado pela lembrança dolorosa da esposa assassinada e o consequente desejo de reparação e vingança além do ajuste de contas que o levou à prisão. Essa opção narrativa conduz a uma passagem no mínimo constrangedora. Gravemente ferido na cidade, após cometer ação tão impensada quanto desastrada, Joaquín busca abrigo nas instalações de Kate. Novamente é auxiliado por ela. Durante a convalescença, reflete sobre as ações praticadas. Ainda frágil, procura a sepultura de Rosita. É surpreendido pela voz de prisão de Love. O que se ouve a seguir é tão inacreditável quanto pusilânime: Murrieta jura que se regenerará, abandonará as armas e o território. Sensibilizado, o xerife o deixa livre. Mais adiante, com os ferimentos agravados, desmaia diante do bando, ao chegar ao esconderijo. É submetido a novo e longo tratamento. Nesse meio tempo os homens empreendem ações das quais o líder supostamente participa. Soa como rompimento do acordo. Desta vez a perseguição não conhecerá comiseração, até o previsível desfecho.


Apesar de amparado por orçamento modesto, A morte de um pistoleiro conta com eficaz aparato técnico e bons atores, inclusive os coadjuvantes. Fica-se a lamentar que a carreira cinematográfica de Jeffrey Hunter — o Martin Pawley de Rastros de ódio (The searchers, 1956), de John Ford, e o Jesus Cristo de O rei dos reis (King of kings, 1961), de Nicholas Ray — tenha praticamente estagnado em meados dos anos 60, deixando-o quase somente com alternativas na televisão. A interpretação de ator é discreta e sem exageros. Há muitos momentos de ação entremeados por trechos cômicos cinematograficamente bem resolvidos, principalmente o frustrado enforcamento de Garcia Três Dedos e o complicado processo de devolução das galinhas roubadas de Kate.


A improvável benfeitora Kate (Diana Lorys)


A pontuação musical de Antonio Pérez Olea é acertadamente evocativa e impregna as cenas com adequada atmosfera. Também merece elogios a direção de fotografia de Miguel Fernández Mila em perfeita consonância com o trabalho de câmera de Hans Burman. Este se sai muito bem, principalmente nos momentos de maior intimismo. As tomadas em primeiro plano de Joaquín e Rosita à beira do rio são comoventes e exemplares.





Roteiro: James O'Hanlon. Produção de linha: Francisco Molero. Produção executiva: José Antonio Sáinz de Vicuña. Música: Antonio Pérez Olea. Direção de fotografia (Eastmancolor, Cinemascope): Miguel Fernández Mila. Montagem: Alfonso Santacana. Direção de arte: Rafael Salazar. Decoração: Enrique Alarcón. Penteados: Dolores Clavel. Maquiagem: José María Sánchez. Gerente de produção: Augusto Boué. Administração da produção: Luis Herrero. Assistente de confecção de costumes: Delfín Prieto. Assistente de continuidade: Juana Moya. Assistente de decoração: Enrique Alarcón. Assistente de produção: Juan Jose Molina. Assistentes de câmera: Jose G. de la Cruz, Guillermo Pena. Assistentes de direção: Stan Torchia, Frederico Vaquero. Assistentes de montagem: Alicia Castillo, Margarita Ibáñez. Chefe de publicidade: Hugo Ferrer. Confecção de costumes: Magdalena Fernández, Catalina Moreno. Continuidade: Daniel Mendoza, Maria Wachman. Contrarregra: Vicente Gómez. Direção de dulabgem: Rafael de Penagos. Direção musical: Antonio Pérez Olea. Dublê: J. L. Chinchilla. Efeitos especiais: Manuel Baquero. Empresa de guarda-roupa: Peris Hermanos. Empresa de mobiliário e contrarregra: Vázquez Hermanos. Engenharia de som: Enrique Molinero. Estúdio de dublagem: Estudios EXA. Firmas de construção do set: Asensio Decoración, Lega-Michelena, Construcine. Fornecimento de material de iluminação: Ilucine S. A. Fotografia de cena: Julio Sánchez Caballero. Operador de câmera: Hans Burman. Referências sonoras: Jesús Ocaña. Ruídos de sala: Luis Castro. Secretário da produção: Jesús Sánchez. Segundo assistente de câmera: Santiago Zuazo. Segundo assistente de direção: Ricardo Baron. Segundo assistente de montagem: María Teresa Mateos. Segundo assistente de produção: Juan Ruiz. Tempo de exibição: 107 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974)

domingo, 12 de novembro de 2017

KURT RUSSELL, A DISNEY E UM SÍMIO NA GUERRA PELA AUDIÊNCIA

A Walt Disney Productions (WDP) demorou a acertar o passo, relativamente prejudicado desde 15 de dezembro de 1966 quando, aos 65 anos, faleceu o criador e produtor que lhe fornece o nome. Tirando raríssimas exceções, tanto os filmes protagonizados por gente de carne e osso como os longas de animação foram, aos poucos, esbarrando na mesmice rotineira que envenena a imaginação e a criatividade. A empresa experimenta um boom e um renascer a partir de 1989 com o desenho animado longo A pequena sereia (The little mermaid), de Ron Clements e John Musker. Porém, quanto às produções live-action não sei atualmente o que dizer. Falta-me conhecimento abalizado sobre o assunto. Há muito perdi o interesse por incursões da Disney nesse setor. Porém, marquei presença por anos a fio, como espectador contumaz, de tudo o que a companhia lançava nos cinemas, desde os anos verdes da meninice até meados da década de 70. Acompanhei a estreia de Kurt Russell, ainda criança, em realizações da WDP com Nunca é tarde para amar (Follow me, boys, 1965), de Norman Tokar, e, entre outros empreendimentos menos inspirados, testemunhei-o em filmes dedicados ao universo estudantil quando interpretou Dexter Riley em Viva o garotão prodígio (The computer wore tennis shoes, 1969), de Robert Butler; Os invencíveis invisíveis (Now you see him, now you don't, 1972), de Robert Butler; e O homem mais forte do mundo (The strongest man in the world, 1975), de Vincent McEveety. Porém, um dos filmes mais interessantes desse período de vacas magras da companhia do Mickey é O chimpanzé manda-chuva (The barefoot executive, 1971), sob a direção de Robert Butler. Aqui, Russell interpreta — com o apoio de velhos e tarimbados coadjuvantes — o ambicioso Steven Post, funcionário de uma emissora de TV que amarga raquíticos índices de audiência. Isto até contar com uma inesperada e improvável ajuda para catapultá-la ao primeiro lugar. A apreciação a seguir, de 1974, sofreu revisão e ampliação em 1978.








O chimpanzé manda-chuva
The barefoot executive

Direção:
Robert Butler
Produção:
Bill Anderson
Walt Disney Productions
EUA — 1971
Elenco:
Kurt Russell, Joe Flynn, Wally Cox, Harry Morgan, Heather North, Hayden Rorke, Alan Hewitt, John Ritter, Jack Bender, Tom Anfinsen, George N. Neise, Ed Reimers, Morgan Farley, Glenn Dixon, Robert Shayne, Tristram Coffin, J. B. Douglas, Ed Prentiss, Fabian Dean, Iris Adrian, Jack Smith, Eve Brent, Sandra Gould, James Flavin, Pete Renoudet, Judson Pratt, Vince Howard, Hal Baylor, Bill Daily, Dave Willock, Anthony "Scooter" Teague, Edward Faulkner, Chimpanzé Raffles e os não creditados Jeffrey Burbank, Howard Culver, Brian Evans, Bruce Rhodewalt, Jason R. Wilbanks, Leon Alton, Benjie Bancroft, Beulah Bondi, Paul Bradley, Argentina Brunetti, Cathy Crosby, Peter Paul Eastman, Ted Gehring, George Golden, James Gonzalez, John Harmon, Robert Hitchcock, Michael Jeffers, Hank Jones, Hans Moebus, Murray Pollack, Tony Regan, Hank Robinson, Clark Ross, Cosmo Sardo, Ernest Sarracino, Jeffrey Sayre, Chet Stratton, Arthur Tovey, Herb Vigran.



O diretor Robert Butler



O ator juvenil Kurt Russell tem longa folha de serviços com a Walt Disney Productions. Em 1965, aos 14 anos, foi visto pela primeira vez — na companhia de Vera Miles, Lillian Gish e Fred MacMurray — em um filme da empresa: Nunca é tarde para amar (Follow me, boys!), de Norman Tokar. Sob a chancela da casa de Mickey Mouse e do Pato Donald atuou a seguir em: Mosby's marauders (1969), de Michael O'Herlily, para a série Disneylândia; The one and only, genuine, original Family Band (1968), de Michael O'Herlily; A sorte tem quatro patas (The horse in the gray flannel suit, 1968), de Norman Tokar; O segredo do castelo (Guns in the heather, 1969), de Robert Butler; Viva o garotão prodígio (The computer wore tennis shoes, 1969), de Robert Butler — primeira aparição do personagem Dexter Riley (Russell), que voltaria em Os invencíveis invisíveis (Now you see him, now you don't, 1972), de Robert Butler, e O homem mais forte do mundo (The strongest man in the world, 1975), de Vincent McEveety.


O chimpanzé manda-chuva é um dos melhores títulos — o que pouco significa — protagonizados por Russell para a Disney. Teve potencial para se transformar em realização das mais promissoras e oportunas caso fosse mais ousada. Muito se fala dos níveis de alienação e imbecilidade do homem médio urbano, ainda mais quando só lhe resta a condição de espectador compulsivo de programas de televisão — "a máquina de produzir idiotas", devastador juízo desferido por acadêmicos e gente comum. Pode-se dizer que a realização de Robert Butler parte dessa excelente premissa. Infelizmente, desperdiçou todas as oportunidades para desenvolvê-la com um mínimo de zelo e profundidade. Sobrou uma comédia burocrática, atolada no sentimentalismo de jovens apaixonados, resguardada por piadas verbais e desgastadas situações cômico-visuais da parte de um time talentoso de velhos atores em final de carreira como Joe Flynn, Wally Cox e Harry Morgan.


Harry Morgan como E. J. Crampton e Joe Flynn no papel de Francis X. Wilbanks

 Francis X. Wilbanks (Joe Flynn) e Mertons (Wally Cox)


As emissoras de TV mais poderosas assim o são devido à audiência que alavancam. Quanto maior o número de telespectadores, maiores visibilidades conseguem os anúncios inseridos nos intervalos dos programas e, logicamente, maiores as oportunidades de vendas de bens e serviços os mais diversos. Evidentemente, os canais batalham por atrações de qualidade — seja lá o que isso signifique —, mas tal horizonte não é necessariamente essencial. O importante, acima de tudo, é assegurar ao máximo a adesão do público consumidor para os espetáculos exibidos. Os campeões de audiência exigirão preços mais elevados dos anunciantes e estes também podem se tornar patrocinadores de atrações associando-as a marcas e produtos. Profissionais de marketing, empresas de pesquisa e aferidores de audiência trabalham constantemente para garantir a fidelidade da audiência pelo conhecimento do seu gosto médio. Em geral, querem saber o que apreciam e, especificamente, o que deve ser oferecido em consonância com faixas etárias, sexo e horários.


Em Los Angeles, a rede UBC — United Broadcasting Corporation — não está bem na disputa por telespectadores. Ajustar a programação a um padrão estável, condizente com as potencialidades do mercado e minimamente diferenciada em relação à concorrência envolve batalhas diárias, quase sempre perdidas. As agências especializadas não dão conta do recado. O jovem Steven Post (Russell), estudante de curso noturno e funcionário do departamento de correspondência da emissora, acredita ter a solução para o problema. Infelizmente, não é ouvido pelo alto escalão — representado pelo divertido e neurastênico gerente geral Francis X. Wilbanks (Flynn). Pelos fracassos, o executivo já é alvo de gozações dos concorrentes. Também é pressionado por superiores de Nova York, liderados pelo furioso Presidente E. J. Crampton (Morgan). As tentativas de Steven não contam sequer com o beneplácito da namorada Jennifer Scott (North), secretária de Wilbanks. Porém, ela acidentalmente aparecerá com uma hilária e reveladora solução. Reside aí, também, a grande inspiração de O chimpanzé manda-chuva — sim, o título brasileiro entrega toda a graça —, de curto alcance, infelizmente.


Steven Post (Kurt Russell) e Raffles

Raffles, Jennifer Scott (Heather North) e Steven Post (Kurt Russell)


De uma hora para outra Jennifer se vê na situação de guardiã do chimpanzé Raffles. Os donos do animal tiveram que viajar às pressas. Aparentemente, é um mascote bem domesticado e não oferece problemas. A televisão, permanentemente ligada, fornece-lhe diversão básica. Porém, Steven percebe que esse espectador atípico estrila nervosamente quando trocam o canal ao qual assiste atentamente. Raffles é aficionado por programas de baixa consideração para os padrões de gente supostamente entendida em qualidade. Um pouco mais de atenção ao comportamento do macaco deixa o ambicioso rapaz com a faca e o queijo nas mãos. O símio é a própria materialização da média ponderada das preferências da audiência ao longo do dia. Privilegia programas de gosto popular, logicamente os mais vistos. O nível de inteligência do espectador padrão — tal qual seu referencial estético — poderia, então, ter um chimpanzé por parâmetro? Seria genial se o roteiro de Joseph L. McEveety, baseado em história de Lila Garrett, Bernie Kahn e Stewart C. Billett explorasse com alguma profundidade essa deixa e endereçasse crítica nada lisonjeira a um dos principais meios da comunicação de massa em geral e aos programas e telespectadores em particular. Infelizmente, nem o diretor Robert Butler considerou a oportunidade. Apenas seguiu fielmente as linhas mestras do guião.


Steven Post (Kurt Russell) e Raffles

  
Steven procura proteger ao máximo o segredo de Raffles. Consegue ser ouvido pela direção e se impor aos altos escalões da emissora. A UBC é catapultada ao posto de campeã de audiência. Logo o jovem talento assume o lugar de Wilbanks — deslocado para o mal definido cargo de diretor de assuntos culturais — e conquista o prêmio máximo do setor: "Homem de TV do Ano". Ganha rios de dinheiro, entra na posse de bens até então inacessíveis e ameaça o posto do presidente E. J. Crampton. É quando tudo muda de direção.


Steven Post (Kurt Russell) premiado como "Homem de TV do Ano"


Descobrir o segredo do sucesso de Steven Post passa a ser a motivação dos ameaçados personagens representados por Joe Flynn e Harry Morgan. Jennifer, inclusive, é relativamente posta para escanteio e a relação passa por dificuldades até tomar ciência do mistério literalmente guardado a sete chaves pelo namorado. A partir daí o protagonismo de O chimpanzé manda-chuva é deslocado para os competentes veteranos Harry Morgan, Joe Flynn e Wally Cox. Este interpreta o falastrão Mertons, motorista de Wilbanks. Não deixa de ser razoavelmente divertida a longa sequência na qual ele — um acrofóbico — e o patrão se aventuram pelas partes externas de um arranha-céu — sempre sujeitos ao pânico e às quedas — para descobrir o bem guardado segredo do sucesso de Steven.


Raffles

Steven Post (Kurt Russell), Raffles e Jennifer Scott (Heather North)


Apesar dos atores tarimbados, principalmente os coadjuvantes, o que sobra é uma comédia que não se arrisca na fórmula há muito consagrada. O resultado é a mesmice simplória e rotineira das produções Disney protagonizadas por gente de verdade — como tem sido a norma nos últimos anos, desde a morte do velho Walt em 15 de dezembro de 1966, aos 65 anos — e dedicadas à diversão de toda a família. Nada de ousadias formais e de conteúdo, muito menos críticas corrosivas ao sistema. Sem querer ofender, talvez Raffles se saísse melhor na direção.




Roteiro: Joseph L. McEveety, baseado em história de Lila Garrett, Bernie Kahn, Stewart C. Billett. Direção de fotografia (Technicolor): Charles F. Wheeler. Montagem: Robert Stafford. Música: Robert F. Brunner. Direção de arte: Ed Graves, John B. Mansbridge. Decoração: Emile Kuri, Frank R. McKelvy. Penteados: La Rue Matheron, Vivian Thompson (não creditada). Maquiagem: Robert J. Schiffer, Ray Steele (não creditado). Gerência de produção (não creditada): John D. Bloss, Russ Walker. Assistente de direção: Ted Schilz. Chefe de equipe do departamento de arte: John A. Kuri (não creditado). Pintura: Leon Ocherman (não creditado). Contrarregra: Wilbur L. Russell (não creditado). Supervisão de som: Robert O. Cook. Mixagem de som: Dean Thomas. Supervisão da edição de efeitos de som: Raymond Craddock (não creditado). Edição de efeitos de som (não creditada): Leonard Davison, Ben Hendricks, Bill Wylie. Operador de boom: Frank Regula (não creditado). Chefe de efeitos especiais: Robert A. Mattey (não creditado). Efeitos ópticos: Eustace Lycett. Arte matte: Alan Maley. Dublê: Dick Warlock (não creditado). Assistentes de câmera (não creditados): Arthur Brooker, Gene Jackson, Ronald M. Vargas Sr. Fotografia de cena: Floyd McCarty (não creditado). Operador de câmera: Roger Shearman (não creditado). Eletricista-chefe: Harry Sundby (não creditado). Guarda-roupa de Raffles: Shelby Anderson. Figurinos: Chuck Keehne, Emily Sundby. Guarda-roupa feminino: Lynne Albright (não creditada). Guarda-roupa masculino: Richard Butz (não creditado). Edição musical: Evelyn Kennedy. Orquestração: Franklyn Marks. Treinador de Raffles: Frank Lamping. Publicidade: Gabe Essoe (não creditado). Continuidade: Karen Hale Wookey (não creditada). Supervisão animal pela Gentle Jungle: Ralph Helfer (não creditado). Primeiro socorros: Dan Novack (não creditado). Fornecimento animal: Gentle Jungle. Cooperação: The National Academy of Television Arts and Sciences. Sistema de mixagem de som: RCA Sound Recording. Tempo de exibição: 96 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974; revisão e ampliação em 1978)



domingo, 5 de novembro de 2017

ROBERT ALDRICH APRESENTA PODEROSO E INJUSTIÇADO FILME DE GÂNGSTER

Kansas City, Missouri, começo dos anos 30: a jovem socialite Barbara Blandish (Kim Darby) passa da situação de refém de uma gang a outra num piscar de olhos. O vigésimo segundo longa metragem de Robert Aldrich, Resgate de uma vida (The Grissom Gang, 1971), me apanhou desprevenido na poltrona do cinema em 1974, com potentes golpes no estômago. De início não esperava muito, devido a várias avaliações negativas que o lançaram na vala comum dos exercícios apelativos. Aos meus critérios é um dos melhores trabalhos do período de vacas magras do cineasta; um título no mínimo injustiçado. Claustrofóbico, com personagens tensos respirando intensamente pelos poros, é dos mais vigorosos e sombrios dramas de gângster do cinema moderno, desde Uma rajada de balas (Bonnie and Clyde, 1967), de Arthur Penn. A narrativa rascante, inteiramente despida de glamour, serve-se de diálogos realistas e ambientações das mais sórdidas — condizentes com a desesperança e brutalidade do período marcado pela Grande Depressão. O ponto de partida à encenação é a maldita novela best-seller de 1939, No orchids for Miss Blandish, de James Hadley Chase, imediatamente classificada como pornográfica. Com igual nome resultou em um dos filmes mais escandalosos do cinema inglês, dirigido por St. John Legh Clowes em 1948 e que pôs contra a parede o cioso British Board of Film Censors (BBFC), responsável por liberações e classificações etárias. Resgate de uma vida privilegia as relações pouco ortodoxas entre refém e algoz. Nesses papéis brilham Kim Darby e Scott Wilson apoiados por coadjuvantes de peso, principalmente Irene Dailey como a assustadora e implacável 'Ma' Gladys Grissom e Tony Musante na interpretação do sempre disposto a matar Eddie Hagan. É um filme visceral, como poucos, de um dos diretores mais ousados e dotados de luz própria do cinema estadunidense. Segue apreciação de 1974, revista e ampliada em 1980. 






Resgate de uma vida
The Grissom Gang

Direção:
Robert Aldrich
Produção:
Robert Aldrich
American Broadcasting Company, The Associates & Aldrich Company
EUA — 1971
Elenco:
Kim Darby, Scott Wilson, Tony Musante, Connie Stevens, Robert Lansing, Irene Dailey, Wesley Addy, Joey Faye, Hal Baylor, Matt Clark, Alvin Hammer, Dots Johnson, Don Keeffer, Elliott Street, Alex Wilson, Michael Baseleon, Raymond Guth, Mort Marshall, John Steadman, Ralph Waite, Dave Willock, Alex Wilson.



O diretor Robert Aldrich



Desde que se lançou inovadoramente na direção, no começo da década de 50, Robert Aldrich perseguiu com audácia e determinação a independência autoral. A carreira assumiu caráter ousado, questionador e marcadamente pessoal ― apesar dos riscos que essas qualidades sempre representaram para a linha de montagem do hollywoodiano sistema de estúdios. Colecionará vários atritos com produtores. Seus filmes, dos mais fracos aos vigorosos, passaram por dolorosos processos de saneamento. Os cortes atingiram seriamente as intenções de Pânico em Singapura (World for ransom, 1954), O último bravo (Apache, 1954), Colinas da ira (The angry hills, 1959), A dez segundos do inferno (Ten seconds to hell, 1959), O último pôr-do-sol (The last sunset, 1961), Sodoma e Gomorra (Sodom and Gomorrah, 1962) e O voo do Fênix (Flight of the Phoenix, 1965). Por isso, tentava avidamente se firmar como produtor. O intento foi logrado ao final dos anos sessenta, graças aos ganhos acumulados com os sucessos de bilheteria de O que aconteceu com Baby Jane (What ever happened to Baby Jane?, 1962) e, particularmente, Os doze condenados (The dirty dozen, 1967). A partir de 1968 a já existente Associates & Aldrich Company dispõe de recursos financeiros suficientes para garantir ao diretor pleno poder na escolha e no desenvolvimento dos próprios projetos.


Infelizmente, a liberdade durou pouco. Sobreveio uma sucessão de fracassos de público e crítica. Deficiências de roteiro prejudicaram A lenda de Lylah Clare (The legend of Lylah Clare, 1968) e o lesbianismo provavelmente afugentou os mais moralistas de Triângulo feminino (The killing of sister George, 1968) ― numa época em que o cinema estadunidense já estava preparado para tudo, como se acreditava. A falta de clareza e sentido, inclusive ausência de motivação dos personagens, tornou inexplicável a simplista abordagem da guerra pela guerra em Assim nascem os heróis (Too late the hero, 1970) ― logo para um diretor notabilizado pela crítica ao militarismo em Morte sem glória (Attack, 1956) e pelo viés irônico e cínico de Os doze condenados. Já o excelente e desmistificador A vingança de Ulzana (Ulzana's raid, 1972) pode ter sofrido as consequências da exposição árida e brutal das ações de brancos e índios no cenário do velho Oeste ― fato a lamentar diante da dessacralização que o western experimentava no período. Entre esses títulos figuram o nunca concluído The greatest mother of them all (1969) ― que consumiu quase todo capital de giro da produtora ― e Resgate de uma vida. Em 1973, a partir de O imperador do Norte (Emperor of the North Pole), a Associates & Aldrich Company estava falida e o diretor reconduzido à seara dos cineastas contratados.


Resgate de uma vida está entre as melhores realizações do período de vacas magras de Aldrich. No mínimo, é um título injustiçado. Trata-se de um dos mais vigorosos e sombrios filmes de gângster do cinema moderno ― desde Uma rajada de balas (Bonnie and Clyde, 1967), de Arthur Penn, portanto. A trama, localizada na desglamourizada e pobre zona rural de Kansas City, Missouri, nos primeiros anos da década de 30 ― auge da Grande Depressão ―, vale-se de diálogos realistas e ambientações das mais sórdidas — condizentes com a desesperança e brutalidade do período. Tais características foram enriquecidas com muitas doses de cinismo, niilismo, humor negro, ironia, violência e perversidade ― tudo o que se espera de realizações assim. Sem dourar pílulas, Aldrich conta a palo seco ― como de hábito ― tensa história de sequestro com ênfase nas relações entre refém e algoz.


O ponto de partida ao roteiro de Leon Griffiths é a novela best-seller No orchids for Miss Blandish, de James Hadley Chase, publicada em 1939 e imediatamente estigmatizada como pornográfica pelas brigadas puritanas. Com título idêntico foi levada ao cinema pela primeira vez em 1948, na Inglaterra, por St. John Legh Clowes. A liberação do filme, inicialmente na íntegra, despertou reação indignada de jornalistas e políticos. O instituto de censura inglês ― o British Board of Film Censors (BBFC) ―, duramente questionado, teve que rever a decisão. Recolhido, No orchids for Miss Blandish sofreu novo exame e vários cortes que o desfiguraram.


Kim Darby em surpreendente interpretação como a refém Barbara Blandish


Resgate de uma vida apresenta a jovem Kim Darby ― intérprete de Mattie Ross em Bravura indômita (True grit, 1969)[1], de Henry Hathaway ― como a garota Barbara Blandish, herdeira milionária de Kansas City. Chama a atenção de desastrada quadrilha de pés de chinelo por usar um valioso colar de diamantes. É sequestrada e o noivo assassinado. O caso ganha imediata repercussão. A polícia inicia as buscas com os bandidos ainda em fuga. Entretanto, outro grupo de foras da lei ― Slim Grisson (Wilson), Eddie Hagan (Musante), Woppy (Faye) e Mace (Waite) ― chefiado despoticamente por 'Ma' Gladys Grissom (Dailey), toma conhecimento da ação e assume a dianteira das operações. Elimina o bando rival e toma a refém. Além de ficar com o colar avaliado em 50 mil dólares, exige de John P. Blandish (Addy) a fortuna de um milhão de dólares pelo resgate da filha.


Irene Dailey como a implacável  'Ma' Gladys Grissom

  
Vestígios de compaixão e compreensão da quadrilha com Barbara não devem ser esperados. A começar por 'Ma', o grupo está disposto a tudo. Os bandidos estão cientes de sua situação em um contexto de crescente criminalidade e pouco valor à vida que não seja monetariamente quantificada. A crise econômica profunda desnudou aparências sociais e esfacelou valores. A abordagem realista de Resgate de uma vida não permite idealizações romanceadas, ambientes limpos, espaços arejados e palavras bonitas. Sobra uma história de nervos expostos, com muita depravação e perigo. Os Grissom não estão dispostos a correr riscos e, assim, não pretendem devolver a garota após recebimento do resgate. Quanto a isto, o direto e frio Eddie Hagan está ansioso para eliminá-la, como facilmente faz, sem dor de consciência, com qualquer um que ameace a segurança do grupo. Porém, surge um complicador: o filho carente, tenso, violento e limítrofe de 'Ma': Slim, em estupenda atuação de Scott Wilson[2]. Caiu de amores por Barbara. Apesar de inicialmente espezinhado por ela, resolve protegê-la. Para se impor, ameaça a mãe com a faca e confronta os comparsas. A herdeira Blandish deve permanecer viva, sustenta. Dessa necessidade imperiosa — é bom não contrariar o sempre imprevisível e desconfiado Slim — resulta a razão de ser de Resgate de uma vida. O sequestro e as negociações pouco importam, mas a ligação afetiva entre os personagens interpretados por Wilson e Darby. Principalmente, como ela agirá ao saber que a própria sobrevivência dependerá da sua boa vontade com o sequestrador apaixonado que nunca teve contato físico com uma mulher.


Scott Wilson como o perigoso, carente, imprevisível e limítrofe Slim Grissom

O frio e despachado Eddie Hagan (Tony Musante), sempre pronto a matar


Para começar a respeitar o "querido" Slim, Barbara sofre brutal corretivo de 'Ma'. Terá que controlar gritos, luxos, xingamentos e a gana de escapar. Termina acuada pelo limite praticamente instintivo de lutar pela vida com as armas que dispõe. A jovem de fino trato, egressa de família respeitável, terá que despencar alguns degraus nos padrões da moralidade e decência aos quais foi habituada. A queda será grande, ainda mais após tomar ciência de que o pagamento do resgate não implica necessariamente em libertação. Prossegue viva, em poder dos criminosos e submetida a Slim. Diante da demora, o pouco compreensível pai John P. Blandish põe em dúvida as boas virtudes da filha. Qual puritano zeloso, considera que a sobrevivência pouco importa quando as virtudes e o senso de decência são sacrificados. Chega o momento no qual ter filha maculada de volta é o que menos importa. As pistas obtidas pela investigação policial revelam: na tentativa de sobreviver a qualquer preço, Barbara avançou por caminhos diametralmente opostos às rigorosas determinações dos valores paternos.


Kim Darby está excelente em um papel que a obriga a ir muito além da jovem virtuosa e cheia de si vista em Bravura indômita. Agora é uma fera acuada, obrigada à mansidão, trancafiada em cômodos exíguos e abafados, iluminados artificialmente durante todo o tempo. O cabelo perde o viço, as roupas finas que usava se desfazem, a higiene corporal deixa de ser imperiosa. A condução de Aldrich e a direção de fotografia de Joseph F. Biroc — carregada de cores quentes, próximas do vermelho — conferem a Resgate de uma vida estado de permanente tensão ou latência próxima à explosão. Os personagens se derretem em suores, Slim e Barbara principalmente. Os aspectos viscerais da narrativa ganham a superfície. Robert Aldrich, seguro em seu campo, sabe o que faz. Lamentavelmente, é uma realização que fracassou por causa da avaliação moralista que mirou apenas a violência e apressadamente a relegou ao patamar dos filmes de exploração apelativa. Isto num ano que trouxe à luz realizações tão ou mais ousadas como Laranja mecânica (A clockwork orange), de Stanley Kubrick; Os demônios (The devils), de Ken Russell; Perseguidor implacável (Dirty Harry), de Don Siegel; Carter — O vingador (Get Carter), de Mike Hodges; e Sob o domínio do medo (Straw dogs), de Sam Peckinpah.


Barbara Blandish (Kim Darby)


A dubiedade narrativa se apresenta como companheira permanente de Resgate de uma vida. Impossível saber se Barbara de fato se entregou completamente a Slim, a ponto de se apaixonar. É certo que ultrapassou os limites, sem que a tanto fosse obrigada e por motivos os mais diversos: medo, carência, vontade de sobreviver, necessidade de se relacionar com alguém depois de cativeiro tão prolongado — quando percebeu a gentileza e a bondade por baixo da máscara do demente assassino que a vigia de perto. Provavelmente, ela apenas permitiu que germinassem sentimentos confusos e não controláveis diante das circunstâncias; uma mistura um tanto maternal de ternura e assimilação. Sabia, no entanto, que ele a amava, ao contrário do próprio pai que a rejeitou abertamente no violento e seco epílogo. O filme não termina bem e nem poderia. Sequer oferece a mínima possibilidade de redenção.


Em meio a tanta sordidez física e moral, somente o decaído detetive particular David Fenner tem pleno conhecimento do real estado de Barbara e de toda a ajuda que deverá ter para superar o prolongado trauma do cativeiro. Ele é o único vestígio de compaixão no dessacralizado Resgate de uma vida. Em termos de consciência, Fenner supera a desapiedada percepção de John P. Blandish — tomada pela indiferença com a sorte da filha.


Os atores estão muito bem ajustados a personagens verdadeiramente maravilhosos, no sentido de genuínos. Nenhum deles é plano ou estereotipado. No pobre e desolador cenário rural, sobre o pano de fundo da Grande Depressão, evocam um padrão de vida que chegou ao limite do caos ou do humanamente possível. Agora é guerra, sem mais tergiversações. A ordem é matar quem não cumpre com o riscado. A violência é inevitável.


Outras linhas podem ser acrescentadas aos desempenhos de Scott Wilson e Kim Darby: Slim é tão vulnerável e frágil quanto perigoso e imprevisível. Se a princípio parecia plenamente detestável, passa a merecer uma espécie de simpatia à medida que a história avança. Barbara é inteiramente crível em sua queda numa espécie de inferno humanizador. Começa como filhinha de papai protegida das mazelas do mundo e habituada às facilidades permitidas pelo dinheiro. Ao fim, parece que terminou um passeio ao inferno, patrocinado pelo próprio Diabo, ou às sendas nada glamourosas do real. Para o bem e o mal, tingiu-se de mundanidade até o fundo da alma. A interpretação cuidadosamente modulada de Kim Darby equilibra na justa medida perplexidade e certeza, fragilidade e sensação de superioridade, medo e determinação. Barbara é uma personagem intensa. Concebê-la exigiu sutileza. Incrivelmente, a atriz jamais mereceu outra chance igual.


Eddie Hagan (Tony Musante), Barbara Blandish (Kim Darby) e Slim Grissom (Scott Wilson)

  
Tony Musante está em seu melhor como Eddie Hagan, o gângster que não titubeia quando é preciso matar e o faz com prazer. Elegante e bem apessoado, exibe o liso cabelo pastoso, repleto de fixador, que tão bem combina com a frieza e humor perverso. Sempre que pode, provoca o mentalmente lento Slim — mesmo sabendo dos sérios riscos que corre. Aguarda com sofreguidão a hora em que pessoalmente tirará a vida de Barbara, e alardeia o desejo somente para espezinhar o filho dileto de 'Ma'. Acompanhado do bem humorado Woppy e do hesitante Mace, Eddie faz Musante se superar numa sequência magistral feita somente de sorrisos e comentários sardônicos direcionados pessoalmente a Slim. É quando o personagem vivido por Scott Wilson chega em casa vestindo um terno estalando de novo e carregado de presentes para Barbara. O momento é exemplarmente construído. Quatro talentosos atores parecem deixar de lado as figuras frias e prontas a matar que representam para preencher Resgate de uma vida com um bem vindo e salutar sopro de humor e humanidade.


Mace (Ralph Waite)


Irene Dailey lança 'Ma' Gladys Grissom no rol das mães referências do cinema no quesito perversidade. É uma matriarca autoritária, sinistra e disposta a tudo. Usa surrados vestidos de incansável dona-de-casa, tem o cabelo mal ajustado e ausência de modos ao sentar — quase sempre de pernas abertas — e falar. À aparência pouco encantadora foram acrescentados discretos pelos de um bigode somente percebido na contraluz. A performance propositalmente exagerada de Dailey transforma-a em alguém que parece saído diretamente das histórias em quadrinhos, como as dedicadas à turma de Ferdinando Buscapé — originalmente o Li'l Abner imortalizado pela pena de Al Capp. Vê-la enquadrando a família, agredindo Barbara e empunhando a metralhadora no último ato é impagável, ainda mais quando executa pelas costas o amante Doc (Keffer), que resolveu se evadir para cenários mais tranquilos quando a situação ficou perigosa demais para a quadrilha. Cinematograficamente, 'Ma' Gladys Grissom está na boa companhia de outras matronas masculinizadas, mandonas e assustadoras: 'Ma' Jarrett (Margaret Wycherly) da obra mestra Fúria sanguinária (White heat, 1949), de Raoul Walsh, e as igualmente "adoráveis" Wilma McClatchie (Angie Dickinson) e 'Ma' Kate Barker (Shelley Winters) respectivamente presentes nos pouco memoráveis A mulher da metralhadora (Big bad mama, 1974), de Steve Carver, e Os 5 de Chicago (Bloody mama, 1970), de Roger Corman.


'Ma' Gladys Grissom (Irene Dailey) pronta para o último ato

  
Connie Stevens oferece como a platinada cantora de cabaré Anna Berg, convertida em interesse amoroso de Eddie Hagan, um delicioso retrato de todas as mulheres do período que se miravam no mito Jean Harlow. Os demais destaques do elenco são David Fenner e Wesley Addy. O primeiro faz o decadente e cansado detetive Robert Lansing — homem que aparenta ter visto tudo o que há de ruim no mundo e ainda assim é capaz de crescer humanamente no contraponto ao desdenhoso pai John P. Blandish interpretado pelo bom Addy, tantas vezes visto em outras realizações de Aldrich: A morte num beijo (Kiss me deadly, 1955), A grande chantagem (The big knife, 1955), A dez segundos do inferno, O que aconteceu com Baby Jane?, Os quatro heróis do Texas (4 for Texas, 1963) e Com a maldade na alma (Hush...Hush, Sweet Charlotte, 1964).


Dentre os filmes de gângster que passam ao largo de facínoras vistosos em grandes centros urbanos, Resgate de uma vida é dos melhores. Posiciona-se muito bem junto a similares igualmente vigorosos e ambientados nas regiões mais pobres e devastadas dos Estados Unidos como Uma rajada de balas e os mais discretos e nem por isso menores Dillinger (Dillinger, 1973), de John Milius, e Renegados até a última rajada (Thieves like us, 1974), de Robert Altman. O roteiro preciso e mordaz de Leon Griffiths é trabalhado por Aldrich de forma a manter a respiração sempre no ponto da tensão. Também oferece um retrato evocativo e vivo do que foram os violentos e pouco aprazíveis Estados Unidos nos anos 30, ao menos nos setores onde as vidas de nada valiam. É um filme sombrio e brutal. Permite a catarse nas explosões de humor negro que parecem saídas das aventuras policiais narradas por revistas em quadrinhos ou pela literatura descartável das brochuras de bolso.


A direção de fotografia de Joseph F. Biroc é, desde o começo, convidativa. Após um fundo negro abre-se um grande plano geral, captado de posição relativamente elevada e revelador da paisagem ampla, semidesértica e ensolarada — ao som da canção I can't give you anything but love, de Dorothy Fields e Jimmy McHugh, pela voz de Rudy Vallee, sucesso de 1928 ao início dos anos 30. É uma tomada enganosa. Daí em diante quase todo o filme se passará no interior de ambientes fechados e escuros, de certo modo também transformados em soturnos e úmidos personagens e não em meros suportes ou fundos para a ação. Por sua vez, a trilha musical de Gerald Fried é das mais alegres e convidativas ao balanço. Além das composições exclusivas do filme, ouvem-se Ain't misbehavin', de Fats Waller, Harry Brooks e Andy Razaf, e I surrender dear, de Gordon Clifford e Harry Barris.


Anna Berg (Connie Stevens) e Eddie Hagan (Tony Musante)


Por fim, uma curiosidade: o perfeccionismo de Robert Aldrich exigiu um verdadeiro colar de diamantes para servir de motivo para o sequestro de Barbara Blandish. Durante as filmagens, a peça esteve sob vigilância constante de um agente especial da companhia de seguros posto a serviço da joalheria. Estava disfarçado de secretário da produção e fazia-se acompanhar de uma escolta armada sempre presente ao set. Arranjos especiais foram acertados com o xerife e uma agência bancária de Placerville, Califórnia — onde algumas tomadas foram obtidas — sempre que o colar era transportado — no começo e ao fim de um dia de filmagens — em carro blindado e acompanhado por batedores em motocicletas.





Roteiro: Leon Griffiths, com base na novela No orchids for Miss Blandish, de James Hadley Chase. Direção de arte: James Dowell Vance. Montagem: Michael Luciano, Frank J. Urioste. Música: Gerald Fried. Direção de fotografia (Metrocolor): Joseph F. Biroc. Figurinos: Norma Koch. Engenharia elétrica: Paul Gilbert (não creditado). Assistentes de câmera (não creditados): Gilbert Haimson, Robert Merry, Rik Nervik, Paul Schwake Jr. Produção associada: William Aldrich, Walter Blake. Produção de elenco: Lynn Stalmaster. Decoração: John Brown. Penteados: Jean Austin, William Turner. Gerente de produção: Fred Ahern. Assistente de direção: Malcolm R. Harding. Segundo assistente de direção: William A. Morrison. Coordenação de construções: John La Salandra. Pintura: Maurice Larson. Responsável por áreas verdes: Don Pringle. Contrarregra: Ygnacio Sepulveda. Som: Richard S. Church. Edição de efeitos sonoros: Van Allen James. Efeitos sonoros: Milo B. Lory. Gravação de som: George Malley. Supervisão de gravação: Harry W. Tetrick. Microfones: Morris Feingold (não creditado). Responsáveis por cabos (não creditados): Donald F. Johnson, Mickey Cureton. Efeitos especiais: Henry Millar Jr. Dublês (não creditados): Dick Durock, Paul Nuckles, Jesse Wayne. Operadores de câmeras: Joe Jackman, Orville Hallberg (não creditado). Fotografia de cena: Kenny Bell (não creditado). Eletricista-chefe: William Hanna II (não creditado). Guarda-roupa feminino: Lucia De Martino. Supervisão de guarda-roupa masculino: Charles E. James. Edição musical: Scott Perry Jr. Músico: Ethmer Roten (flauta/não creditado). Transportes: Pat Miller (não creditado). Continuidade: Robert Gary. Assistente de produção: Patricia Heade. Coreógrafo: Alex Romero. Supervisão de diálogos: Robert Sherman. Publicidade: Dave Davies (não creditado). Planejamento de créditos: Don Record (não creditado). Tempo de exibição: 128 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974; revisto e ampliado em 1980)



[1] Pelo qual John Wayne ganhou o Oscar de Melhor Ator como Rooster Cogburn.
[2] Teve atuação brilhante como o assassino Dick em A sangue frio (In cold blood, 1967), de Richard Brooks.