domingo, 11 de fevereiro de 2018

MARILYN MONROE GARANTE SOBREVIDA AO MODESTO "LOVE NEST"

Apoiado em roteiro de I. A. L. Diamond — que teria melhores dias com Billy Wilder —, o esquecido Joseph M. Newman dirigiu a assistível comédia romântica O segredo das viúvas (Love nest, 1951). É produção das mais modestas da 20th Century-Fox no início dos anos 50, estrelada por atores do segundo escalão da companhia. Não fosse a presença do mito Marilyn Monroe entre os coadjuvantes, estaria condenada ao esquecimento. A platinada aspirante a atriz, então a meio caminho de ascender ao primeiro time do panteão hollywoodiano, interpreta Roberta 'Bobbie' Stevens — nova e exuberante inquilina do Gramacy Park, edifício residencial em Manhattan, Nova York. A Segunda Guerra Mundial chegou ao fim; os soldados voltam ao lar. O desmobilizado Jim Scott (William Lundigan), candidato a escritor, logo se vê na condição de proprietário. Enquanto combatia na Europa, a diligente esposa Connie (June Haver) trabalhou duro e economizou o que pode para adquirir o imóvel. A vida que se apresenta não será tão fácil como imaginavam. Alguns inquilinos excêntricos preocupam, principalmente o simpático e generoso golpista Charles Patterson (Frank Fay) e a própria Roberta Stevens — vista por Connie como ameaça à estabilidade conjugal. Porém, o pior está por vir: já avançado nos anos, o Gramacy Park é um escoadouro de dinheiro. Precisa de muitos cuidados e está na alça de mira da fiscalização municipal. Leve, divertido e agradável, O segredo das viúvas respira a atmosfera carregada de otimismo do imediato pós-guerra. O sonho americano da busca pela felicidade estava em alta e todos os problemas pareciam desafios de fácil superação. A apreciação a seguir é de 2012. 







O segredo das viúvas
Love nest

Direção:
Joseph M. Newman
Produção:
Jules Buck
20th Century-Fox
EUA — 1951
Elenco:
June Haver, William Lundigan, Frank Fay, Marilyn Monroe, Jack Paar, Leatrice Joy, Henry Kulky e os não creditados Florence Auer, Rodney Bell, Faire Binney, Marie Blake, Donna Jo Boyce, Benny Burt, Charles Calvert, Russ Clark, Leo Cleary, George Conrad, John Costello, Jack Daly, Anthony De Mario, Franklyn Farnum, James Gonzalez, Mack Gray, Robert Haines, Stuart Hall, Alvin Hammer, Bradford Hatton, Harry Hines, Edna Holland, Bob Jellison, William Justine, Frank Kreig, Murray Leonard, Caryl Lincoln, Mike Mahoney, Patricia Miller, Ray Montgomery, Walter Nordella, Don Orlando, Joe Ploski, Danny Richards Jr., Albin Robeling, Michael Ross, Sudhanshu Saria, Bernard Sell, Elizabeth Slifer, Louis Torres Jr., Maude Wallace, Billy Wayne, Martha Wentworth, Lois Wilde, Clifton Young. 


O diretor Joseph M. Newman


Marilyn Monroe é um mito. Sua imagem platinada inclusive transcendeu o campo estritamente cinematográfico. Passadas quatro décadas do precoce falecimento em 1962, aos 36 anos, está com a legenda preservada e em permanente ascensão. Certamente, é exclusivamente por esse motivo que o obscuro O segredo das viúvas ainda é apresentado. Ela sequer é a atriz principal — a palma cabe à esquecida June Haver. Monroe é simples coadjuvante, quase uma figurante com fala e merecedora de alguns planos exclusivos. Demora a entrar em cena, por volta dos 30 minutos de exibição. Provoca ciúmes e equívocos para logo desaparecer sem maiores explicações. Falharam o roteiro, a montagem, a direção ou o quê? Como saber?


De todo modo, segundo as crônicas jornalísticas e a própria filmografia de Marilyn, O segredo das viúvas lhe permitiu oportunidade de atuação com boca cheia. Não era simples adorno como geralmente acontecia até então, com a exceção de Mentira salvadora (Ladies of the chorus, 1948), de Phil Karlson. A personagem Roberta 'Bobbie' Stevens da realização de Joseph M. Newman foi notada pelas plateias e saudada com referências elogiosas por setores da crítica. Nada mal para quem estreou no cinema em 1947 e, dentre as onze produções seguintes, mereceu, via de regra, papéis de pequena intensidade em O segredo das jóias (The asphalt jungle, 1950), de John Huston; O Faísca (The Fireball, 1950), de Tay Garnett; A malvada (All about Eve, 1950), de Joseph L. Mankiewicz; Em cada lar, um romance (Home town story, 1951), de Arthur Pierson; e Sempre jovem (As young as you feel, 1951), de Harmon Jones.


A inquilina Roberta Stevens (Marilyn Monroe) e a proprietária Connie Scott (June Haver)


O cineasta Joseph M. Newman não é particularmente notável. Iniciou a carreira como assistente de direção e diretor de segunda unidade. Passou à realização em 1938. Até 1947 assinou uma série de curtas para a Metro-Goldwyn-Mayer. Estreou no longa em 1942: Northwest rangers. Abandonou definitivamente o cinema após dirigir Da lama para a glória (The George Raft story, 1961). A seguir, até 1965, prosseguiu na televisão. Concebeu episódios para as séries The great adventure[1], Além da imaginação (The twilight zone)[2], Alfred Hitchcock apresenta (The Alfred Hitchcock hour)[3] e The Big Valley[4]. Seus filmes mais aclamados são Sindicato do crime (711 Ocean Drive, 1950), O último jogo (The guy who came back, 1951), Montanhas ardentes (Red skies of Montana, 1952), Uma trágica aventura (Dangerous crossing, 1953) e Contra a lei (The lawbreakers, 1961).


Uma das qualidades de O segredo das viúvas é o roteiro de I. A. L. Diamond, mais tarde famoso por fornecer material para alguns dos mais aclamados títulos de Billy Wilder: Amor na tarde (Love in the afternoon, 1957), Quanto mais quente melhor (Some like it hot, 1959), Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960), Cupido não tem bandeira (One, two, three, 1961) etc. Percebe-se, à medida que a narrativa avança — principalmente quando se aproxima do final —, quantas possibilidades foram desperdiçadas pela direção. Havia todo um microcosmo a explorar, capaz de transformar O segredo das viúvas em boa comédia de situações. Vai ver, o destino do título estava selado desde que a 20th Century-Fox o condenou ao rol dos filmes menores — um dos mais modestos da companhia no início dos anos 50.


Ainda assim, é leve, divertida e — no mais das vezes — agradável comédia romântica. O título original Love nest (ninho de amor) faz referência aos resultados concretos dos planos de melhoria de vida de Connie Scott (Haver), empreendedora e ambiciosa esposa do soldado Jim Scott (William Lundigan). Enquanto ele combateu na Europa por dois anos e meio entre os aliados da Segunda Guerra Mundial, ela trabalhou duro e economizou o quanto pode — inclusive o soldo religiosamente recebido pelo marido. Agora, terminado o conflito, ele retorna a Nova York e à vida civil. Poderá se dedicar ao sonho de se estabelecer como romancista — ou quase: Jim se descobrirá na situação do relutante senhorio do título do livro de Scott Corbett — The reluctant landlord — que serviu de base ao roteiro. Ou Jane seria a melhor merecedora do predicado?


Connie Scott (June Haver)

O reencontro de Connie Scott (June Haver) com o desmobilizado marido Jim Scott (William Lundigan)


Para surpresa de Jim, a esposa investiu tudo o que tinham na aquisição do Gramacy Park — prédio de apartamentos residenciais em Manhattan. Muito dinheiro pode ser levantado com o aluguel das unidades, algumas já ocupadas. Ao otimista casal proprietário estão reservadas as dependências do térreo. Diligente e dinâmica, Connie acredita na fácil e rápida recuperação do montante imobilizado. Enquanto isso, Jim terá muito tempo livre para escrever. Tudo parece romanticamente simples.


Evidentemente, o pior dos mundos dará entrada. Antes, são os novos inquilinos que causam preocupações — principalmente para Connie: o muito simpático, solícito, generoso e galanteador Charles Kenneth 'Charley' Patterson (Fay) — que caiu de amores pela vizinha e viúva senhora Eadie Gaynor (Joy) — e a insinuante e disponível Roberta Stevens — também militar desmobilizada após integrar o corpo feminino do exército estadunidense em ação na Europa. É amiga de Jim e, pelo visto, nada mais que isso. Entretanto, aos olhos ciumentos da apreensiva Connie é uma ameaça à estabilidade conjugal. Felizmente entra em cena Ed Forbes (Paar), amigo desimpedido do casal e sempre pronto a desviar a atenção da recém-chegada.


Charles Patterson (Frank Fay) e Eadie Gaynor (Leatrice Joy)

Ed Forbes (Jack Paar) e Roberta Stevens (Marilyn Monroe)


Logo descobrem que o edifício, já avançado nos anos, exige muitos cuidados — inclusive profundas e caríssimas reformas estruturais. Como desgraça pouca é bobagem, é condenado à demolição pela atenta fiscalização municipal. Um prejuízo irreparável, de amplas dimensões, ameaça Jim e Connie. A solução é a venda do imóvel, de preferência a quem puder recuperá-lo. No entanto, os potenciais compradores não ousam pagar a quantia pedida. Nesse contexto, Connie descobre que foi vítima de superfaturamento: pagou pelo prédio valor muito acima do estipulado pelo mercado.


Jim Scott (William Lundigan) e o eletricista (Bradford Hatton) 

  
Em meio a tantos problemas, Jim amarga, da parte das editoras, a rejeição ao primeiro livro que escreveu. Já as piores suspeitas sobre Charles são confirmadas. É um Don Juan especializado em golpes do baú. As vítimas preferenciais são viúvas emocionalmente carentes e em boa situação econômica. Com simpatia e conversa envolvente, aproxima-se delas e logo se faz amigo, amante e administrador financeiro. Deixou muitas senhoras sem dinheiro. Seus casos ficaram famosos. É perseguido pelas vítimas, policiais e jornalistas.


Conforme o previsto, Charles é preso por poligamia. Contudo, não cabe ao espectador esperar o pior. O homem é generoso. Tentou auxiliar Jim e Connie, adiantando-lhes parte do dinheiro necessário para reestruturar o prédio. Também está disposto a se regenerar, pois se apaixonou perdidamente por Eadie — viúva economicamente remediada, amorosa e compreensiva. Ele está pronto a retribuir. Assim, oferece ao incrédulo Jim a oportunidade de escrever um livro de sucesso, baseado em caso real e bem ao gosto da massa leitora. Numa única noite dita ao quase falido senhorio as próprias memórias de conquistador contumaz. Publicadas, convertem-se em imediato best seller: My life and loves “por Charley Price conforme ditado a Jim Scott”. É o fim dos problemas para todos, principalmente os financeiros. Julgado e condenado a 18 meses de prisão, Charles terá para onde voltar quando terminar a sentença: aos braços do amor verdadeiro e fiel de Eadie Gaynor, no agora recuperado e remodelado Gramacy Park dos felizes Jim e Connie. Infelizmente, Roberta Stevens não chega ao final do filme. Onde a produção a escondeu?


Connie Scott (June Haver) e Jim Scott (William Lundigan)

  
A trilha musical de O segredo das viúvas é corriqueira. Basicamente, ouvem-se duas composições: Love nest, música de Louis A. Hirsch e letra de Otto A. Harbach; e, incidentalmente, Laura, de David Raksin, tema do filme homônimo dirigido por Otto Preminger em 1944.


Além do roteiro, outros valores desta modestíssima produção são os atores — arregimentados no cast do segundo escalão da 20th Century-Fox. Destacam-se os coadjuvantes, principalmente Frank Fay com ampla vantagem sobre os demais nomes. É muito difícil não manifestar simpatia pelo malandro e bon-vivant Charles Patterson. Ofusca inclusive o casal protagonista, defendido com competência — porém, sem maior brilho — por June Haver e William Lundigan. Apesar de pouco exigidos, Jack Paar e Leatrice Joy não decepcionam. Marilyn Monroe está à vontade ou ao natural — no sentido de não exagerar. A estampa da atriz é suficiente para descrever a personagem Robert Stevens. Parece que ela sabia disso e se conteve ao máximo. Entrou em cena, representou honestamente e pronto. Pena que desapareceu sem mais nem menos.


Roberta Stevens (Marilyn Monroe) e o roupão mais "adequado"


Por fim, algumas curiosidades: 1) Frank Fay foi marido das atrizes Barbara Stanwyck, Frances White, Betty Kean e Gladys Buchanan. Atuou em apenas 15 filmes, de 1922 a 1951. O último é exatamente O segredo das viúvas. Também marcou presença na genial comédia Nada é sagrado (Nothing sacred, 1937), de William A. Wellman. Ficou mais conhecido como mestre de cerimônias em shows de variedades ou vaudeville. 2) Em 1953, sem conseguir renovar o contrato com a 20th Century-Fox, June Haver se tornou freira por alguns meses. Assim que abandonou o hábito, iniciou relacionamento com ator Fred MacMurray. Adotaram duas gêmeas e permaneceram juntos até a morte dele, em 1991. Ela faleceu em 2005. 3) Antes de June Haver, Anne Baxter e Jeanne Crain foram cogitadas para interpretar Connie Scott. 4) Com Jim Scott dormindo no sofá do apartamento de Roberta Stevens, ela se prepara para um banho. Parte da sequência causou verdadeiro rebuliço no set, por causa do roupão usado pela atriz — ousadíssimo para a época. Por isso, o diretor Joseph M. Newman ordenou a substituição por modelo respeitosamente mais fechado. É usado pela personagem na escadaria, momento em que sacode a integridade de Jim e eleva a desconfiança — sempre infundada — de Connie.





Roteiro: I. A. L. Diamond, com base em The reluctant landlord, novela de Scott Corbett. Música: Cyril J. Mockridge. Direção de fotografia (preto e branco): Lloyd Ahern Sr. Montagem: J. Watson Webb Jr. Produção de elenco: George J. Light (não creditado). Direção de arte: George L. Patrick, Lyle R. Wheeler. Decoração: Thomas Little, Bruce MacDonald. Figurinos: Renié. Maquiagem: Ben Nye. Gerente de unidade de produção: Sam Wurtzel (não creditado). Assistentes de direção: Jasper Blystone, Ad Schaumer (não creditado). Contrarregra (não creditada): M. Duke Abrahams, John Edward Court. Som: Bernard Freericks, Harry M. Leonard. Efeitos fotográficos especiais: Fred Sersen. Direção de guarda-roupa: Charles Le Maire. Orquestração: Bernard Mayers. Direção musical: Lionel Newman. Dublês (não creditados): Shirley Clarke (p/June Harver), Harry Mayo (p/William Lundigan). Amestrador: Frank Inn (não creditado). Sistema de mixagem de som: Western Electric Recording. Tempo de exibição: 84 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2012)


[1] Produzida por John Houseman para a CBS — Columbia Broadcasting System — e composta por uma temporada com 26 episódios. Exibida originalmente de 27 de setembro de 1963 a primeiro de maio de 1964.
[2] Produção de Rod Serling, Buck Houghton, William Froug e Herbert Hirschman para a CBS — Columbia Broadcasting System. São cinco temporadas e 156 episódios originalmente levados ao ar de 2 de outubro de 1959 a 19 de junho de 1964.
[3] Produzida e apresentada por Alfred Hitchcock para a CBS — Columbia Broadcasting System — e NBC — National Broadcasting Company. Composta de três temporadas e 93 episódios. Transmitida originalmente de 20 de setembro de 1962 a 10 de maio de 1965.
[4] Criada por A. I. Bezzerides e Louis F. Edelman; estrelada por Barbara Stanwyck, Richard Long, Lee Majors, Linda Evans e Peter Breck; produzida por Levy-Gardner-Laven Productions, Four Star Television e Margate. Formada por 112 episódios distribuídos por quatro temporadas. Originalmente exibida de 15 de setembro de 1965 a 19 de maio de 1969. 

2 comentários:

  1. Hola Eugenio, no he tenido oportunidad de ver esta comedia y aunque sea ligerita, siempre es agradable ver a Marilyn en el cine en una agradable comedia romántica como citas en tu texto.

    Me llama la atención eso que comentas de que sin mayor reparo la rubia más famosa de Hollywood desaparece de la historia en la película, lo que en principio reflejaría un descuidado guión de la misma.


    Muy interesantes las curiosidades finales que comentas.

    Un gran abrazo estimado.

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    1. Hola, Miguel!

      "Love Nest" vale sólo como curiosidad. En España, el título es "Memorias de un Don Juan". En cuanto a la desaparición del personaje hecho por la Marilyn, puede ser un descuido del guión. Pero el I. A. L. Diamond es muy bueno para cometer falla así. Entonces, puede ser aún un problema de montaje. La Fox no tuvo muy cuidado con la película. Es una de las producciones de más pequeño presupuesto de la compañía.

      Abrazos y saludos.

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